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Vida de são Roque |


Os dados cronológicos. Roque de Montpellier (Mompilher), conforme à tradição, nasceu nesta cidade francesa numa família da classe nobre ou ao menos da rica burguesia mercantil. O pai chamava-se João, a mãe Líbera (ou Franca) e segundo algumas fontes teria sido oriunda da Lombardia. No que diz respeito ao apelido, alguns historiadores propuseram uma família «Delacroix», outros «Roq» ou semelhantes, apoiando assim a tese de que Roch não seja um nome mas sim um sobrenome; porém depois de anos e anos de pesquisas as várias hipóteses não levaram a nada de realmente concreto.
O facto é que durante muitos séculos foi mantida como certa a cronologia indicada por Francesco Diedo, um dos primeiros hagiógrafos¹ do santo, o qual fixara os termos da vida dele entre 1295 e 1327; mas sobretudo desde a segunda metade do século vinte afirmou-se pelo contrário uma «nova cronologia», hoje considerada como a mais provável por aqueles estudiosos que estão convencidos da historicidade da figura de são Roque: 1345/50 – 1376/79.

[¹ Temos que distinguir entre os «biógrafos», com motivações mais históricas, e os «hagiógrafos», mais interessados com os conteúdos religiosos, morais e facilmente lendários ].

As fontes escritas. As mais importantes entre as antigas hagiografias dedicadas à vida e à lenda de são Roque são essencialmente duas: a Vita Sancti Rochi, escrita em 1479 pelo acima citado Francesco Diedo, um jurista veneziano que foi governador de Bréscia, e os chamados Acta Breviora (conhecidos também como «Anónimo latino»), dados ao prelo em 1483 numa colectânea de vidas de santos. Existe também uma obra chamada convencionalmente «Anónimo alemão», que pode-se encontrar em duas versões, a vienense de 1482 e a de Nurenberg de 1484; em fim, com menor relevância, porque derivados directamente o indirectamente dos primeiros dois textos, as hagiografias do dominicano francês Jehan Phelipot (1494), do escritor italiano Ercole Albiflorio (1494) e do bispo francês Jean de Pins (1516).
Em 2004 foi encontrada uma Istoria di San Rocco de um tal Domenico da Vicenza, um breve texto italiano em versos poéticos datável aproximadamente entre 1478 e 1480; trata-se de uma descoberta verdadeiramente excepcional, porquanto não pode-se excluir que essa Istoria seja a primeira obra em absoluto dedicada ao nosso Santo. No momento, todavia, os estudos ainda estão em curso.
É preciso porém lembrar que os antigos hagiógrafos não eram impelidos acima de tudo por motivações históricas e biográficas, mas sim pelo piedoso desejo de apresentarem exemplos de virtude e de santidade cristã; nesse sentido, o escopo edificante e moral das vicissitudes que descreviam prevalecia facilmente sobre a exacta reconstrução dos factos. Nos textos deles, porém, encontram-se elementos de alguma consistência, embora do ponto de vista histórico fiquem bem mais relevantes e fiáveis as fontes litúrgicas, arqueológicas e documentais.

Breve reconstrução da vida. Conforme à tradição, Roque cresce num meio ambiente profundamente cristão e manifesta bem cedo sinais de santidade. Pelos vinte anos de idade perde ambos os pais e toma a decisão de viver a fundo o exemplo de Cristo; vende todos os seus bense veste o traje do peregrino, fazendo o voto de ir a Roma. Mas a longa viagem dele na Itália padece contínuas deviações, para acompanhar a difusão da peste. Com efeito, Roque, em vez de fugir do contágio, põe-se corajosamente ao serviço dos doentes, os ajuda e os reconforta, e até obtém de Deus a faculdade de curá-los milagrosamente.
A primeira das etapas assinaladas é Acquapendente, na província de Viterbo. Roque chega aí por volta de 1367 e vai, como de costume, para um hospital, apesar da resistência do prior, Vicente, que não queria expó-lo ao contágio. Entra depois a Roma neste ano ou no seguinte, tendo Urbano V regressado pouco antes do exílio francês de Avinhão onde os pontífices ficaram quase sessenta anos, e aqui cura um misterioso cardeal ou alto prelado, que por gratidão o apresenta ao papa, numa emocionante audiência particular. Mora em Roma alguns anos, e depois retoma o caminho em 1370-71. Em Placência contrai a peste e logo tem que afastar-se do povoado; abriga-se num bosque – de acordo com a tradição, perto de Sarmato – e escapa da morte por fome graças à um cão, que cada dia lhe traz um bocado de pão. O rico dono do animal é o nobre Gotardo (geralmente tido por membro da família Pallastrelli, mas há dúvidas sobre isso), o qual, alertado pelos vaivéns do cão, segue-o e descobre o abrigo de são Roque; dentro em breve torna-se seu discípulo e consagra-se também a Cristo, renunciando aos seus bens. Depois de sarado, Roque despede-se do amigo e decide voltar à pátria.
Os antigos testemunhos sobre os últimos anos da vida dele já não ficam sustentáveis. Ele não morreu em Montpellier, como parece indicar Diedo, nem em Angera, como afirmam os Acta Breviora. Roque acha-se envolvido numa guerra, talvez a entre o Ducado de Milão e a aliança em volta do Estado da Igreja (1371-75); a zona de Placência era com efeito um dos pontos nevrálgicos do conflito, logo parece verossímil que Roque, depois de ser preso como «espião», seja levado para Voghera, onde encontrava-se Castellino Beccaria, o superintendente militar dos Visconti. Cativo por quase cinco anos, Roque vive aquela prova como uma espécie de purgatório de expiação dos pecados e morre aos 16 de agosto, num ano entre 1376 e 1379.

A nascença do culto. A reconstrução da fase final da vida de Roque é aceitável, obviamente, na medida em que considera-se como fundada a «nova cronologia» (1345/50 - 1376/79). Em todo o caso, esta cidade lombarda de Voghera é tida hoje com a maior probabilidade como o lugar do falecimento do Santo e com certeza o lugar da origem e da primeira expansão do seu culto – tudo isso na base de vários apoios documentais.
O mais importante é sem dúvida a atestação da mais antiga festa de são Roque em absoluto, como podemos ver num documento ainda conservado no Arquivo Histórico de Voghera, aprovado oficialmente por Gian Galeazzo Visconti em 1391. As relíquias do Santo, guardadas na cidade por mais de um século, foram trasladadas a Veneza em 1483, e daqui o culto de são Roque espalhou-se em toda a Europa.

A “canonização”. No que diz respeito a proclamação da santidade, temos que rejeitar a versão de Diedo, que fala do concílio de Constância de 1414; as averiguações documentais, com efeito, nada dizem a esse respeito. Não têm consistência as hipóteses relacionadas com certas iniciativas de diversos papas e antipapas dos séculos quatorze e quinze. Logo mantemos como fiáveis as únicas datas confirmadas por textos e deliberações oficiais – embora indirectas – da Santa Sé, isto é 1499 (Alexandre VI), 1547 (Paulo III), 1590 (Sixto V), 1591 (Gregório XIV), 1629 (Urbano VIII). Em definitiva, são Roque é um exemplo típico da nascença de um culto pela voz do povo, ratificado pela Igreja somente a posteriori, a respeito da espontânea devoção dos fieis.

As relíquias. Mas a questão mais intrincada é a das relíquias, actualmente conservadas em Veneza. A chamada «versão de Arles» fica hoje abandonada, porque os suportes documentais baseiam-se sobre papeis não atendíveis e até falsificados, como brilhantemente demonstrou Pierre Bolle. Permanece então comprovada a única tese sustentável, a «versão veneziana», a partir do bem conhecido episódio do “roubo” de Voghera em 1485. Na realidade, como ainda demonstrou o prof. Bolle na base de espantosos documentos por ele encontrados, o chamado piedoso roubo foi a versão oficial, bem falsificada, duma compra-venda feita às escondidas em 1483, um negócio que teve certamente como protagonistas o «Guardian grando» da Irmandade veneziana de São Roque, Tommaso Alberti, e um dos frades que em Voghera cuidavam da custódia do corpo; provavelmente ficaram também implicadas, mais ou menos, as maiores autoridades públicas das duas cidades.

O carisma de são Roque. Mas, além desses aspectos e da dificuldade de encontrarmos elementos certos para uma “biografia” ao menos parcialmente provável, o certo é que a figura de são Roqie continua ainda hoje vivíssima no coração dos fieis, através de inúmeras tradições devocionais, festas patronais, edifícios sacros, testemunhos documentais, objectos artísticos e acima de tudo obras sociais, assistenciais e caritativas, que continuam fazendo do nosso Santo não só um verdadeiro e imperecível campeão da solidariedade e do amor cristão, mas também um fulgente exemplo para todos os homens de boa vontade.

Texto: PAOLO ASCAGNI
Tradução: ELENA CRISTINA BOLLA


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“Rochum patre Johanne matre vero Libera nomine genitum constat. Is patriam habuit Montem Pessulanum, que olim Agatha sive Agathopolis appelabatur, Narbonensie Gallie oppidum non ignobile” (Francesco Diedo, Vita Sancti Rochi, 1479)



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